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segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Seja honesto comigo mesmo




Uma das maneiras de você avaliar a receptividade do público diante de uma estréia de cinema é ouvindo os comentários sobre o longa no final do filme e nos corredores de saída do cinema. No caso de PLANETA DOS MACACOS: A ORIGEM, as críticas são injustas: “Péssimo, horrível”, “Onde já se viu macaco andando daquele jeito”, “Macaco falando...nem em circo”. Comentários injustos porque o público não é honesto consigo mesmo. Veja só: na entrada do Cinema, na fila da bilheteria, tem um grande cartaz em que se pode ver o triunfo de um macaco. Isso já sugere um longa de ficção científica. Além disso, na nossa sociedade extremamente interligada e conectada, quem não ouvir falar de PLANETA DOS MACACOS, série de ficção científica de sucesso em 1968, poderia pesquisar sobre o longa antes de ir aos cinemas para conferir a novidade, o reboost (refilmar, reinventar , reciclar, recomeçar franquias de sucesso do passado para os cinemas da atualidade).

O novo PLANETA DOS MACACOS: A ORIGEM é uma ótima refilmagem, cheia de novidades tecnológicas, enredos clássicos e reflexões atuais. A grande diferença dessa versão é pela troca dos atores fantasiados de chipanzés por efeitos tecnológicos super sofisticados e alta tecnologia. Às vezes você vai se confundir se o primata é real ou fruto da tecnologia da indústria cinematográfica.

O longa basicamente se desenrola de acordo com a evolução emocional de Cesar, o chipanzé protagonista do filme. Sua trajetória começa quando o cientista Will Rodman (James Franco) é surpreendido por um acidente e vê sua pesquisa em terapia gênica ser desativada. Com isso, todos os macacos que servem de cobaia de experiências no laboratório são sacrificados e Will decide salvar um bebê chimpanzé e levá-lo para casa. Tem início aí uma ligação de afeto entre o cientista e o macaco , que é chamado de César e criado como se fosse um filho. Mas a relação entre os dois é abalada depois que Will é obrigado a mandar o macaco para um abrigo, onde passa a viver confinado com outros primatas. Lá, César usa sua inteligência extraordinária, resultante dos experimentos de laboratório, para planejar uma fuga coletiva.

É muito interessante a construção do longa pela percepção de Cesar e que apesar de falar uma só palavra (já parece muito, não?), tem comportamentos muito contundentes. É quase animal companheiro e tranqüilo, mas que pode explodir em segundos.
Do núcleo de seres humanos, destacaria a atuação de John Lithgow. O ator dá vida ao pai de Franco, que interpreta muito fidedignamente o Mal de Alzheimer. Da cena da fuga dos macacos, destacaria a batalha na Golden Gate. É uma aula de estratégia e táticas de guerra. Tudo com muita tensão.

E justiça seja feita, trata-se de uma boa indicação, com ótima opção para entretenimento e boas reflexões pós-longa, com destaque para a questão da humanidade x selvageria, coletivo x individual, honra, lealdade e raça.


sexta-feira, 13 de maio de 2011

Conectado às tendências




Um filme jovem. Com linguagem rápida, como na internet, e enredo dinâmico, como a vida dos jovens, A REDE SOCIAL tem seus merecidos destaques.

Dinamismo e rapidez transmitem falta de fôlego, não é? O começo do filme também. O telespectador é quase vencido por desistência de tanto ouvir Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg), o criador do Facebook, falar sem parar sobre os QIs dos gênio e as diferenças com e as fraternidades mais exclusivas e disputadas de de Harvard.

E é nesta construção que acontece o desenrolar da história, com muita urgência, diga-se de passagem. As cenas distribuídas entre presente, com o julgamento dos valores éticos de Mark, e passado, com os conflitos de sua relação com a fraternidade de Havard, são rápidas, mas não menos contundentes.

Além disso, a história, como o próprio nome sugere, narra o surgimento do Facebook, através de uma origem muito polêmica. Para se vingar das mulheres, Zuckerberg hackeia do seu quarto em Harvard algumas redes de faculdades e cria um site que ranqueia fotos de universitárias. Começa a germinar aí a ideia da rede social que o tornou bilionário.

Ao longo dessa evolução do Facebook e crescimento da conta bancária de Mark, sua relação com os mais próximos é distante, mesmo ele sendo o criador da maior rede de contato do mundo. Essa dissonância passa rápido, mas consegue fazer refletir. Vale a pena.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Cisne Dourado




Uma vez já disse nesse Blog que um bom filme, como uma obra de arte, é aquela produção capaz de mexer com nossos sentimentos. Ou melhor, em linhas gerais, é aquele filme que faz arrepiar. Não arrepios em cenas de explosão e ação do gênero TriploX, mas efeitos dramáticos, angulações de câmera, figurino e atuações harmônicas que nos comovem, em todos os sentidos.

O CISNE NEGRO é um caso típido desses. Não só pela dualidade entre a delicadeza e a segurança que Natalie Portman atua, mas os limites dos nervos humanos que o diretor Darren Aronofsky gosta de explorar em seus filmes.

O filme narra a trajetória de Nina Sayers (Natalie Portman), uma jovem e dedicada bailarina que ganha o papel principal na famosa peça “O lago dos cisnes”. Para Nina, é fácil interpretar Odette, o Cisne Branco, afinal, partilha com a personagem suas qualidades virginais, pura, inocente e encantadora. O desafio é a interpretação de Odile, o Cisne Negro, a encarnação da sensualidade e sedução.

Ao longo dessa mudança, Aronofsky faz um belo trabalho em conseguir fazer a platéia ficar angustiante, atormentada com a exploração dos limites físicos e psicológicos do ser humano. Prepare-se, há aflição durante todo o longa.

Basicamente, CISNE NEGRO traz a dualidade da vida, a oposição entre preto e branco, bom e ruim, pressão (chefe de Nina) e amor (superproteção da Mãe de Nina), virgindade e sedução.

A fotografia é belíssima e varia entre o branco e preto. Há tons de cinza, mas nada monótono e que consegue acompanhar a “evolução” / passagem de Nina.

Além de uma ótima indicação, por ser um thriller psicológico ambientado num cenário muito inovador, vale a pena assistir pela ótima interpretação de Natalie Portman , que perdeu peso, aprendeu a dançar (ainda que em vários momentos tenha sido ajudada pelas suas dublês) e tem cenas de sexo mais ousadas do que o público norte-americano está acostumado em seus "filmes de Oscar". Convence, mesmo com os delírios psicológicos. Hoje, ela já ganhou o prêmio europeu BAFTA, como melhor atriz. O OSCAR? “Coming soon”...

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Cadê o Vampiro?





Depois das filmagens sobre a saga dos vampiros, é a vez do ídolo teen Robert Pattinson provar se é realmente um grande ator ou um subproduto criado pela indústria de cinema, que alimenta a fantasia do entretenimento. No longa LEMBRANÇAS, Pattinson intrepreta Tyler Hawkins, um jovem universitário, filho de um pai (Pierce Brosnan) milionário e viciado no mundo dos negócios, no trabalho e na frieza que lhe convém.

Tyler vive à procura de um caminho na sua vida que seja diferente no irmão mais velho, um músico que suicidou-se após ter começado a trabalhar com o pai, num imponente escritório em Nova York.

Durante uma de duas procuras pelo caminho de sua vida (um tanto abstrato, não?), Tyler dá de cara com o policial pavio-curto Neil Graig (Chris Cooper), que o leva para passar a noite atrás das grades depois de uma provocação. Para Tyler, o assunto morreu ali. Para o seu companheiro de apartamento, é necessário uma desforra. É aí que entra Ally Craig (Emilie de Ravin, a Claire, de Lost), filha do sargento e colega deles na NYU, a Universidade de Nova York. O “vampiro” e a “indefesa loira de Lost” começam a namorar a partir de então, como o roteiro deixa a entender. Sim, mais um longa muito previsível, até a cena final.

Na cena final, uma lição de moral desnecessária no filme despretensioso e dramático. Aliás, Robert Pattinson ainda não provou ser um grande ator. Após assistir o longa LEMBRANÇAS, você se recordará da interpretação de Brosnan e do final besta. O vampirinho saiu pela tangente...

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Evite




Imagine a receita do longa Sr. e Sra. Smith às avessas. Tire Brad Pitt e coloque Ashton Kutcher. Esqueça Angelina Jolie e imagine uma mocinha indefesa que entra no mundo policial por acaso. A mocinha? É a bela e loira Katherine Heigl. Esse é o filme PAR PERFEITO, típica produção previsível de Hollywood caracterizada como comédia romântica de ação. Que na realidade poderia ser “filminho água com açúcar a ser evitado”.

No caso, Katherine Heigl interpreta toda personificação do desejo das mocinhas da atualidade: é rica, linda, loira e espera por um príncipe encantado. Quando o príncipe encantado aparece em cena, através de uma linguagem meio AS PANTERAS com MISSÃO IMPOSSÍVEL, ele chega com licença pra matar! O bonitão é Ashton Kutcher. O mesmo Ashton Kutcher de sempre, com seu sorriso envergonhado, galanteador, blá, blá, blá...

O casal se apaixona e casa. Sim, no filme o amor de verão dá super certo e o casal blasé se casa. Relaxe, não passa cena de nenhum casamento clichê.

No filme PAR PARFEITO, o imaginário americano sobressai: a apatia da imaginação feminina, obsessão por armas, paixão por SUVs....Enfim, tem horas que um filminho “água com açúcar” é bem vindo. No caso de PAR PERFEITO, nem de graça.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Do lado do "bem" ou do "mau"




Uma idéia fantástica: um país tomado por toda paranóia anti-terrorista é vítima do próprio “filho” militar. Essa é a receita do longa AMEAÇA TERRORISTA. Soma a isso os elementos fundamentais de um thriller psicológico dirigido por Gregor Jordan e o resultado é um excelente filme.

No longa, Younger (Michael Sheen) é um jovem que, ao se converter ao islamismo, declara ódio ideológico aos EUA e coloca três bombas atômicas em três diferentes grandes centros urbanos dos Estados Unidos. Para Younger, que já foi militar e ao longo do filme assume um outro nome árabe, conhece todo sistema de guerra e político que os EUA possuem no oriente médio. Assim, ele aceita ser preso e passar pelas pressões psicológicas e torturas físicas em nome de seu propósito: proteger seu novo país da invasão imperialista e bélica dos EUA.

O clímax do longa ocorre quando Younger não dá as coordenadas de onde as bombas estão e entram em cena o investigador/torturador H (Samuel L. Jackson) e Helen (Came-Anne Moss), uma adorável e competente agente do FBI. Ambos representam mundos opostos do lado do “bem” que unem esforços para descobrir a verdade do “mau”.

AMEAÇA TERRORISTA é um excelente filme, que supera os efeitos de um simples thriller bem feito, faz pensar e refletir sobre a realidade do mundo do “bem” e do “mau”.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Coadjuvante protagonista




Romance e Guerra é comum no cinema. Para diferenciar uma obra com essa temática (como é o caso de QUERIDO JOHN) em meio a tantas outras, é preciso novidades, nova linguagem ou mesmo uma nova guerra.

Depois de ENTRE IRMÃOS (está neste blog também), é a vez do longa de Lasse Hallström trazer o conflito oriundo do 11 de Setembro como plano de fundo diante de um romance. No caso, o soldado John (Channing Tatum - G.I. Joe - A Origem de Cobra) está de licença quando conhece Savannah (Amanda Seyfried – Mamma Mia) e se apaixona. Ali, no verão (sim, é um amor de verão), eles se relacionam intensamente, criam vínculos e laços amorosos que sob juras de amor melodramáticas, seriam pra vida toda.

O casal vive duas semanas de amor intenso em um lindo cenário litorâneo com todos os clichês típicos de filmes de romance, com direito o primeiro beijo na chuva e tudo mais. Terminada as férias, John precisa voltar para seu posto nas Forças Especiais do Exército dos Estados Unidos e Savannah para seus estudos na faculdade.

Para continuar o romance, o casal decide trocar informações via cartas. Ele na guerra e com uma vida nômade nunca sabe ao certo onde está e ela fixa na faculdade ou na casa de verão durante as férias.

Neste contexto, as torres do World Trade Center, não só colocando abaixo não apenas as Torres Gêmeas como também as chances do casal se reencontrar.

É um bom filme para ser visto nos dias de inverno em que já não tem mais nada para fazer. Aliás, uma boa leitura é ver a atuação do pai do protagonista . Richard Jenkis interpreta um pai melancólico, viciado em sua coleção de moedas isolado do mundo através da personalidade de um autista.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

A Guerra e o conflito sanguíneo





Jake Gyllenhaal, Tobey Maguire, Natalie Portman formam um triângulo amoroso. Parece um drama clichê de romance, correto? Não. Não porque o filme ENTRE IRMÃOS ainda adiciona a Guerra dos EUA contra Afeganistão como plano de fundo e o fato de Jake e Tobey serem irmãos.

Tobey é Sam, um respeitado capitão que tem uma esposa linda (Natalie Portman) e duas filhas. Já na Guerra, o clímax do longa acontece quando Sam é capturado por afegãos e todos nos EUA acreditam que ele foi morto. A partir daí, aparece Jake Gyllenhaal, o irmão problemático que estava preso e servirá de ombro amigo para a enviuvada esposa.

O mundo dos dois irmão aparentemente são mutualmente opostos entre si. Enquanto Jake é o irmão rebelde e malandro, Tobey é o nerd responsável. Parecem mundos diferentes, mas quando Tobey volta da Guerra com uma lembrança terrivelmente assustadora, seu irmão já está virando a figura paterna de sua família.

Outro ponto muito bem trabalhado no longa é a questão das consequências e da hereditariedade que uma guerra causa na vida dos envolvidos diretos e indiretos. Assim como Tobey volta com outra personalidade do conflito, seu pai, Hank, vivido por Sam Shepard, passou no Vietnã por um trauma semelhante ao que Sam agora enfrenta no Afeganistão, o contato com a morte.

O conflito amoroso do longa ENTRE IRMÃOS é envolvente, o enredo bem costurado, um pouco previsível, mas ainda sim plausível. Além disso, há excelente atuação dos atores, sobretudo Tobey Maguire (você vai esquecer o homem-aranha)envolvidos numa discussão que é sobre as consequências dos conflitos de guerra na formação dos soldados. Seja no Vietnã ou no Afeganistão.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Engajado trovador épico




O herói, o bispo, um ar trovador, aventura épica. Misture esses elementos com a dupla impagável do filme Gladiador, o diretor Ridley Scott e o ator Russell Crowe. E ainda tem Lady Marion, vivida por Cate Blanchett .
Esses são os elementos fundamentais do filme Robin Hood, um longa claramente que quer ser um blockbusters.

Nesta versão, Robin, após chegar das Cruzadas e carregar a informação da morte do popular Rei Ricardo Coração de Leão (Danny Huston), se vê diante de uma situação privilegiada. Robin ainda é o homem honesto, ético e que acaba preso por falar demais. Típico benefício que falta nos dias de hoje para homens que terão feitos históricos e grandiosos de soldado.

Neste longa, esqueça o magricela Robin Hood com chapéu verde à la Peter Pan. Na obra de Scott, Robin encontra a realeza, torna-se herdeiro de Nottingham, vence batalhas em nome da liberdade dos ingleses.

A obra é previsível, mas não considere uma crítica negativa, afinal a história é conhecida de todos. A fotografia é convincente, apesar de percebermos semelhanças na direção do filme com Gladiador e As Cruzadas. É um novo Robin, com uma direção velha e conhecida pelos apaixonados por Cinema.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Cinema Brasileiro - Parte IV

Continuando...

Apesar do caráter estrangeirista, Vera Cruz deixa um marco para a história cinematográfica nacional, como é o caso do filme “O cangaceiro” (1953), de Lima Barreto, que faz sucesso internacional (Festival De Cannes), iniciando o ciclo de filmes sobre cangaço.

Sobre esse gênero tipicamente brasileiro, é preciso ressaltar a importância do artista Amácio Mazzaropi, que foi um dos grandes salários da companhia Vera Cruz, vivendo o personagem caipira mais bem-sucedido do cinema nacional. Mazzaropi foi um popular comediante do cinema brasileiro, comparado a Chaplin e a Cantinflas, consagrou-se no tipo mais famoso das telas nacionais, o Jeca, um caipira ingênuo mas que sempre acabava se saindo bem em suas artimanhas. Além disso, tornou-se sucesso imediato de bilheteria e fez “Nadando em Dinheiro”, um de seus trabalhos mais famosos, antes de fundar sua própria produtora, a PAN Filmes.  Sua primeira produção independente foi “Chofer de Praça”.

Além de Mazzaropi, há um grupo de artistas que, apesar de não estar diretamente ligado ao cinema de “cangaço”, está intimamente relacionado à realidade brasileira, “Os Trapalhões”. O grupo, que era composto por quatro comediantes, tinha um programa fixo na TV e ajudou a compor, quanti e qualitativamente a cinemateca nacional, mais pelo aspecto cômico e lúdico e infantil de suas produções. O enredo dos filmes do grupo possui narrativa simples, porém exprime a realidade nacional, uma vez que ilustra a sociedade com vários personagens típicos do Brasil “vulgar”.
Ainda sobre esse contexto da Vera Cruz, há uma reação à indústria: é o movimento do Cinema Novo, que divulga a produção cinematográfica nacional para todo o mundo. Esse movimento, constituído por jovens cineastas, tinha como foco a produção de filmes com temáticas sociais e eram contrários aos caríssimos filmes produzidos pela Vera Cruz e avessos às alienações culturais que as chanchadas refletiam, demonstrando a maturidade cultural e artística do país. Dentre os representantes, destacamos Glauber Rocha, Paulo César Sarraceni, Joaquim Pedro de Andrade, Ruy Guerra, Carlos Diegues, Sérgio Ricardo Walter Lima Jr.

Apesar desse movimento nascer num período de conturbação da história nacional (leia-se Ditadura Militar e seus órgãos repressores e censuradores), o Cinema Novo continua a fazer obras críticas da realidade, ainda que usando metáforas para burlar a censura dos governos militares. Dessa época, destacam-se o próprio Gláuber Rocha, com “Terra em Transe” (1968), Rogério Sganzerla, diretor de “O Bandido da Luz Vermelha” (1968) e Júlio Bressane, este dono de um estilo personalíssimo. Ao mesmo tempo, o público reencontra-se com o cinema, com o sucesso das comédias leves conhecidas como “pornochanchadas”. Sobre esse movimento, vários aspectos positivos podem ser compartilhados para futuras produções, tais como: a dependência do mercado brasileiro aos filmes importados; a submissão dos cineastas no Brasil à linguagem do cinema hollywoodiano e foco na realidade sócio-político-cultural do país.
Sobre a história do cinema na realidade brasileira, mais recentemente, temos um gênero em particular e de grande importância: o Cinema de Retomada. Como o nome sugere, essa escola cinematográfica refere-se ao cinema atual a partir da recuperação da produção de filmes no Brasil. Para o entendimento deste, é preciso fazer valer à ascensão de Fernando Collor de Mello, que autorizou que fossem extintas leis de incentivos culturais e órgãos culturais da União, dentre eles a Empresa Brasileira de Filmes (Embrafilme), o Conselho Nacional de Cinema (Concine) e a Fundação do Cinema Brasileiro (FCB). Com isso, por dois anos o Brasil teve a sua produção cinematográfica praticamente estagnada.

Posteriormente, a retomada dessa produção ocorreu por volta de 1995, quando começaram a operar efetivamente dois mecanismos de incentivo à cultura: a Lei Rouanet e a Lei do Audiovisual. Daí a denominação “cinema da retomada”, criada por alguns estudiosos em referência ao cinema produzido nos oito anos de governo de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002). Vale ressaltar que a renuncia fiscal promovida for FHC para a promoção de novos filmes, tem um caráter quantitativo no cenário cinematográfico nacional, já que não se promove um viés qualitativo nos nossos filmes, através de uma temática.relevante. Apesar disso, o Cinema de Retomada gerou filmes de grande impacto, como "Central do Brasil" e "Cidade de Deus" e estimulou o surgimento de muitos cineastas e permitiu a continuidade do trabalho de vários diretores veteranos.

Além disso, é nesse cenário que os filmes atuais tem adquirido relevância internacional, tais como três filmes que são indicados ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro: “O Quatrilho” (1995), “O Que é Isso, Companheiro” (1997) e “Central do Brasil” (1998), também vencedor do Urso de Ouro do Festival de Berlim. Nomes como Walter Salles, diretor de “Terra Estrangeira” (1993) e “Central do Brasil” e Carla Camuratti, diretora de “Carlota Joaquina, Princesa do Brazil” (1995) tornam-se nomes conhecidos do grande público, atraindo milhões de espectadores para as salas de exibição.

Fim!

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Cinema Brasileiro - Parte III

Continuando...

A instabilidade do início da década de 40 favoreceu, porém, o florescimento da Atlântida Empresa Cinematográfica do Brasil S/A. Apesar da pouca literatura sobre Atlântida, se sabe que ela fora composta por um grupo de entusiastas, entre os quais estão Arnaldo de Farias, Alinor Azevedo, os irmãos José Carlos e Paulo Burle e Moacir Fenelon, que tinham um certo grau de consciência social do momento em que viviam e se reuniram para criar com a empresa um local permanente para a prática do grupo. Eles não só faziam filmes, mas ainda tentam criar uma experiência cinematográfica brasileira ou pelo menos carioca, e ao mesmo tempo abordar problemas sociais até então ausentes da temática nacional.

Além disso, a empresa recorre à chanchada para ganhar mais público, introduzindo o gênero no bastião dos “filmes-sérios”. E é nesse contexto, mais precisamente entre 1941 a 1947, que a empresa consolidou-se como a maior produtora do Brasil. Ao contrário da Cinédia e da Brasil Vita Filmes, empresas mergulhadas em temáticas emperradoras, a Atlântida desenvolvia seguidos empreendimentos derivados de linhas de produção complementares, quais sejam, a chanchada e as fitas “socializantes”, formando as primeiras platéias cativas do cinema nacional.

Os números comprovam que Atlântida tivera relevância no cenário do nosso cinema, uma vez que nos seus 21 anos de atividade, a empresa produziu 66 filmes (sem contar com “Assim era a Atlântida”, de 74) num ritmo contínuo e com boa resposta de bilheteria. Dessa maneira, podemos concluir que a produtora brasileira fora conduzida por homens altruístas, politizados de esquerda, cuja ambição não era apenas os cine-jornais, mas sim a chegada do longa-metragem. Porém, foi em 1946, quando o presidente Eurico Gaspar Dutra assina o decreto 20.943, que amplia a reserva de mercado para os filmes brasileiros. Segundo o decreto os cinemas são obrigados a exibir anualmente, no mínimo, três filmes nacionais por ano. Assim, Severiano (novo integrante da empresa) entra na produção de filmes visando produzir seus próprios filmes para cobrir a reserva e auferir o maior lucro possível. Para isso, a Atlântida não fez uso da isenção de impostos para a importação de equipamentos e material cinematográfico, conseguidos pelo Sindicato Nacional da Indústria Cinematográfica em 1949; manteve as precárias condições técnicas dos estúdios; a produção era artesanal, para se ter uma idéias das condições, os filmes eram revelados no próprio estúdio e enrolados à mão, enfim, a Companhia permaneceu trabalhando com reduzidas equipes técnicas, mantendo a improvisação como “regra” de produção. Dentro dessa política de redução de custos e produção voltada para o mercado, a Atlântida produziu nos anos Severiano Ribeiro (47-62), 51 filmes, uma média de 3,4 filmes por ano, justamente o número suficiente para o cumprimento da reserva de mercado estabelecida em 1946. Diante deste quadro, bem distante do manifesto elaborado pelos seus fundadores, Moacyr Fenelon abandona a Atlântida e produz, de forma independente, oito filmes fora da Companhia entre os anos 1948 e 1950. Fenelon teria que esperar até 1952 para inaugurar o seu próprio estúdio – Flama Filmes – com um filme de sucesso talhado para o carnaval: Tudo Azul, que foi recentemente restaurado pelo o Centro de Pesquisa do Cinema Brasileiro.
No final da década de 50 o país passa por um momento de mudanças, a política dos “50 anos em 5” de Juscelino Kubitscheck abriu o país para o capital e a cultura estrangeira acelerando o desenvolvimento industrial; o neo-realismo italiano influencia o cinema brasileiro que começa a se voltar para temas que abordam a denúncia social, o que seria uma prévia do Cinema Novo; os Congressos de Cinema de 52 e 53 despertam uma consciência maior a respeito dos problemas que assolam o cinema brasileiro e a necessidade de um cinema industrial com o apoio do Estado. No entanto, a Atlântida permanece repetindo as mesmas fórmulas sem mostrar capacidade de renovação e com o esgotamento do filão das chanchadas e do filme musical a Companhia paralisa as suas atividades em 1962.

A respeito da quinta fase do cinema nacional, entre os anos de 1950-1966, há um destaque para a cidade de São Paulo, afinal, após o fim da Segunda Guerra Mundial e da ditadura do Estado Novo, em 1945, a capital vive um momento de efervescência cultural. Revistas de divulgação artística, conferências, seminários e exposições agitam a vida paulista, bem como a inauguração do Museu de Arte Moderna e o MASP - Museu de Arte de São Paulo. Na mesma época, Franco Zampari, empresário de origem italiana, monta uma companhia teatral de alto nível, o TBC - Teatro Brasileiro de Comédia e cresce o interesse pelo cinema, como o fato de intelectuais fundarem cineclubes e movimentarem grupos de debates.
Nesse contexto, surge um projeto estético-cultural mais amplo, que previa para São Paulo a vitalização da vida cultural, conduzida pela burguesia industrial, buscando uma hegemonia na vida política e cultural do país: a fundação da Vera Cruz. A produção da Vera Cruz, movimento que renega a Chanchada, é um empreendimento de grandes proporções que pretende unificar estúdios, cujo foco é produzir filmes industrialmente, aos moldes dos hollywoodianos, lançando estrelas de cinema, tais como Tânia Carreiro.

É preciso salientar que o progresso que Vera Cruz traz para o cinema nacional fora única e exclusivamente técnico, pois a indústria movimentava vultosos valores monetários e importava profissionais estrangeiros, sobretudo os norte-americanos e possibilitava a formação de cineastas nacionais. Porém, apesar de toda essa ambição, a empresa sucumbiu-se, devido aos altos valores das produções, bem como a ausência de um sistema eficiente de distribuição de seus filmes, a dificuldade de colocar o filme brasileiro no competitivo mercado internacional e pela concorrência desigual com os filmes estrangeiros no país.

Continua...

sábado, 11 de setembro de 2010

Cinema Brasileiro - Parte II

Continuando...

Posteriormente, ocorre a segunda fase do cinema nacional (algumas literaturas afirmam que se estende de 1912-1922), mantido pelo esforço de produção de documentários e cine-jornais, uma vez que as salas , em sua grande maioria, exibiam produções estrangeiras, além das "cavações", onde por exemplo uma grande indústria contrata um cinegrafista e sua equipe para fazer um documentário institucional sobre a empresa, ou ainda importantes famílias encomendavam o registro de casamentos ou batizados. Entre os filmes desse tempo, destacam-se os calcados em obras célebres da literatura brasileira e a continuidade dos filmes criminais.

Nos anos seguintes, entre 1923-1933 (3ª fase), período em que a indústria brasileira começa a dar seus primeiros passos, o mercado cinematográfico nacional também amplia o número de produções, bem como a qualidade técnica e a expansão dessas, saindo do eixo Rio-São Paulo para regiões mineiras, pernambucanas e sulistas. Além disso, o nosso cinema mudo faz clássicos, porém o filme falado já era comentado nos países desenvolvidos. Dessa época, destacam-se o mineiro Humberto Mauro, autor de “Ganga Bruta” (1933) - filme que mostra uma crescente sofisticação da linguagem cinematográfica – e as “chanchadas” (comédias musicais com populares cantores do rádio e atrizes do teatro de revista) do estúdio Cinédia. Filmes como “Alô, Alô Brasil” (1935) e “Alô, Alô Carnaval” (1936) caem no gosto popular e revelam mitos do cinema brasileiro, como a cantora Carmen Miranda (símbolo da brejeirice brasileira que, curiosamente, nasceu em Portugal). Nesse contexto, a produtora Cinédia era obtinha quase a hegemonia do mercado.

Posteriormente, na quarta fase do cinema nacional, (entre 1934-1949), o resultado mais evidente foi a proliferação do gênero da comédia popularesca, vulgar e freqüentemente musical, registrou e exprimiu alguns aspectos e aspirações do panorama humano do Rio de Janeiro através das chanchadas.

Sobre esse período, devemos dar destaque a um gênero genuinamente nacional: as chanchadas. Estes filmes aproveitavam figuras populares do início do século, cantores de circo e espetáculos, para compor o elenco. Além disso, a outra face das primeiras comédias musicais foram os carnavalescos, nas quais, as inovações nos carnavais de todos os anos e nas avenidas viriam do Rio para São Paulo em 1918, através da fita “O Carnaval Cantado”. Ainda nesse contexto, em 1931, embora com menos sucesso, São Paulo encerraria a sua participação na aventura chanchadesca com “Coisas Nossas”. O filme apresentava qualidades novas, cuja direção coube ao norte-americano Wallace Downey, vindo da Fábrica de Discos Columbia. Finalmente, “Coisas Nossas” foi a primeira tentativa de fazer o cinema brasileiro enveredar na direção dos filmes musicais americanos que estavam fazendo sucesso. Assim, o forte do filme eram as músicas e cantores. Posteriormente, transportada a chanchada para o Rio, ela voltaria com força total pelo êxito da produção de Wallace Downey, “Alô, Alô, Brasil!”. O filme era uma continuação melhorada pelo “movietone” a fita anterior “Coisas Nossas”, ou seja, desfilava uma séria de músicas encadeadas por um enredo mínimo, temperadas por astros do rádio (o veículo de comunicação que ascendia na vida cotidiana brasileira da época).

Além disso, essa produção de chanchadas carioca lançou um conjunto de atores como Mesquitinha, Oscarito e Grande Otelo, que foram os principais responsáveis pela aproximação do filme brasileiro com o público. Vale ressaltar também, que é durante essa fase da história brasileira, que o nosso cinema vive um período muito particular : o Estado Novo de Getúlio Vargas. Como conseqüência, fora criado o DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) órgão repressor e censor do Estado Novo Verguista que intensificou sua ação, em primeiro lugar, contra a imprensa. Entretanto, o cinema também foi alvo de ações do governo, que lhe determinou linhas de execução de medidas normativas e produtivas. No primeiro caso, o DIP preocupou-se com o curta-metragem, o célebre “complemento nacional” obrigatório do filme estrangeiro, notadamente quando investiu na produção do seu cine-jornal, dando-lhe uma renda de 5 cadeiras por sessão, margem de 30 a 50 % ao produtor e fiscalização para observância da lei. Se o DIP por todas estas medidas era um órgão impulsionador do cinema, ela nunca tirava os pés da terra pela censura. Proibiu-se “O Grande Ditador”. De Chaplin, tanto de ser exibido quanto de ser divulgado, pois negava-se espaço a notícias e comentários sobre o filme nos jornais. Além disso, o Clube de Cinema de São Paulo, do qual participava a jovem intelectualidade paulistana, foi proibido de funcionar por seu caráter “subversivo”.

Continua...

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Reação contrária



A sinopse do filme é a seguinte: “Durante o mês de agosto de 2001, um mês antes dos ataques terroristas de 11 de setembro, dois irmãos ambiciosos brigam para manter sua próspera companhia em Wall Street. Tom (Josh Hartnett) e Joshua (Adam Scott) encaram a ameaça de um colapso sem precedentes na área financeira. Tom passa a ter sua vida pessoal afetada pelas dificuldades na empresa e tenta a todo o custo, salvar, não só o seu relacionamento com Sarah (Naomie Harris), mas sua própria companhia, mesmo que isto signifique ir contra os interesses de seu principal investidor, Ogilvie (David Bowie). Toda fortuna tem seu preço e neste caso o valor é extremamente alto.” Parece incrível, não?

Não. O longa REAÇÃO COLATERAL tem ótimos predicados para ter sido grande sucesso. O enredo parece ser interessante, o diretor tem boa dose de empolgação com a câmera no “respirar dos atores”, os diálogos aguçam a curiosidade, o clima de tensão paira no ar, mesmo sem saber muito bem porque, você ficará entusiasmado. Mas, nada ali parece encaixar muito bem.

O contexto ocorre num cenário corporativo, Business to Business (B2B), no qual mesmo com a Wall Street como plano de fundo, a agressividade nas negociações mal fundamentadas não convence.

Enfim, a proposta do filme é ótima. Espetacular! Uma pena que ficou no papel...

Reivindicando identidade



De início, parece até um filme de produção B, mas depois do desenrolar da história, você percebe o quanto o enredo de MENINOS NÃO CHORAM se torna envolvente com as peripécias de Brandon, o menino, ou melhor, a menina interpretada por Hilary Swank.

Teena Brandon, aliás, Brandon Teena, é uma jovem adolescente que decide assumir sua homossexualidade personificada em um rapaz para fugir do preconceito. Assim, Teena se torna Brandon, com direito a elásticos para esconder os seios, Hilary Swank convence como rapaz. Numa atuação como esta, você percebe o quanto um bom ator não deve ter vaidades.

A partir daí, Brandon cai no clichê com o desenrolar de uma vida dupla. É um (uma) forasteiro que encantou a pequena comunidade rural de Falls City, no estado de Nebraska. As mulheres o adoravam e quase todos que conheciam esse recém-chegado carismático eram atraídos por sua inocência encantadora. Porém, o desfecho é trágico: um triângulo amoroso complicado e um crime que abalaria o interior do país.

MENINOS NÃO CHORAM é uma boa indicação como exercício de reflexão. Ainda vale a pena alugar (filme de 1999) para ver Hilary Swank como Teena Brandon, um presságio de sua premiação do Oscar no MENINA DE OURO.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Cinema Brasileiro - Parte I

Pessoal, vou postar 4 posts sobre o histórico do Cinema Nacional.

Após a primeira exibição pública do “Cinematographe” dos irmãos Lumiére em 28 de dezembro de 1895, meio ano depois, essa arte chegava ao Brasil (com Affonso Segretto., imigrante italiano que filmou cenas do porto do Rio de Janeiro). Este fato tem extrema relevância, uma vez que cada vez mais é necessário criar o sentimento nacionalista em arte, a fim de que consigamos adquirir emancipação cultural (e econômica). Porém, como se sabe, a história da colonização brasileira tem raízes e seqüelas até hoje, inclusive na história cinematográfica do país.

No Brasil, a primeira sessão ocorreu a 8 de julho de 1896, numa sala devidamente preparada, à Rua do Ouvidor 57, Rio de Janeiro, precisamente às 2h da tarde, e como é de se esperar, foi um acontecimento de extremo entusiasmo. Com uma maior “popularização” (o privilégio ainda era de poucos), no ano de 1897 mais de 52.000 pessoas já tinham tido contato com a máquina de Cinema.

Nesse contexto, o início da expressividade do Cinema Brasileiro ocorre, naturalmente, após 1907, quando a cidade do Rio de Janeiro, centro mais importante do país, obteve energia elétrica produzida industrialmente. Desde cedo, o mercado brasileiro tornou-se de grande importância para os centros produtores da época. Primeiro, vieram os filmes experimentais de Edison, Lumiére e outros. Logo em seguida, as pesquisas já mais elaboradas de Georges Méliès, Zecca, Edwin Porter, etc. Nesse cenário, já fica claro que o nosso cinema tinha como essência a internacionalidade, como ocorre, em 1915, num concurso de popularidade, no qual, os quatro primeiros postos foram ocupados pela italiana Francesca Bertini, pelos dinamarqueses Nielsen e Psilander, e pelo norte-americano Maurice Costello. Daí por diante, garantido pelos grandes bancos, que pouco a pouco haviam tomado o controle dos estúdios, os filmes norte-americanos começaram a entrar com maior força em nosso mercado, eliminando gradativamente, através de uma produção e uma publicidade maciças, os demais concorrentes.

Esse primeiro período do cinema nacional ocorre entre 1986-1911, porém é durante os anos de 1908-1911 que é chamada a “Bela Época”, fase em que a produção desenvolve-se juntamente com a ampliação e consolidação de um circuito exibidor, pois é a partir de 1907 que se multiplicam as salas fixas. A produção provém em grande parte da iniciativa de donos de salas que se tornam, simultaneamente, exibidores e produtores, obtendo o favor do público. Apesar do caráter nacional, o período em questão vive um contexto contraditório, afinal os filmes dessa época, que reconstituíam crimes que impressionavam a imaginação popular, coincidem com a transformação desse cinema artesanal em industrial, nos países desenvolvidos. Foi durante 10 anos, que o nosso cinema “vegetou”, afinal trata-se de uma atividade comercial de exibição de fitas importadas, quanto como fabricação artesanal local. Essa “Idade do Ouro ou Bela Época” (o termo seria uma classificação válida à sombra da frustração das décadas seguintes) se encerrou em 1911, com a queda brusca da produção. Em 1912, foi realizado apenas um filme de enredo no Rio de Janeiro.

Vale ressaltar, que durante esse período de transformação do cinema artesanal em importante indústria, o Brasil importava até palito em troca do café que exportava e ,era natural que importasse também o entretenimento fabricado nos grandes centros europeus e da América do Norte. E nesse contexto, o cinema nacional ficou inteiramente à disposição do filme estrangeiro.

Aguardem para cenas dos próximos capítulos, ou melhor, próximas cenas...

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Desconhecido cantor famoso




Imagine um cantor norte-americano do Texas, com jeitão de mocinho de filmes do Velho Oeste, que encontra no álcool sua compania diante da carreira musical decadente. O cantor é Bad Blake (Jeff Bridges)e com a caracterização que lhe é pertinente, usa chapéu surrado, o cinto desafivelado, calça jeans aberta, camisa rasgada no cotovelo e um galão cheio de um certo líquido amarelo.

O artísta já foi um grande ícone na música country e com sua atual vida itinerante rumo aos shows em pequenas cidades, com o público da terceira idade compondo com direito a tietes, Blake segue rumo ao suicídio devido ao uso excessivo de álcool e cigarros. Ele já está esgotado fisicamente e financeiramente.

O interessante mesmo é a atuação do ator Jeff, no qual todas as atenções se concentram, sem pudor ou recursos de cinema, ele é a verdadeira personificação do cantor. Cantor famoso da década de 60? Não, não existiu nenhum Bad Blake, muito embora você acredite fielmente que já o viu em algum lugar ou já ouviu alguma de suas músicas.

A rotina suicida do cantor country muda quando ele conhece Jean (Maggie Gyllenhaal), a repórter do jornal local de Santa Fé, entra em seu quarto, ele se apaixona pelo seu jeito meigo e seus briilhantes olhos azuis durante uma entrevista.

A partir daí, com a união entre o jovem coração meigo da jornalista com o velho coração viciado do cantor, o filme ganha novos ares. O protagonista vai à reflexão: Blake vai encontrar na música e na paixão razões para começar a caminhar sóbrio e com vontade de recuperar o tempo perdido.

Dentre as varias premiações e indicações, o longa, cuja direção é responsável por Scott Cooper , tem no Oscar 2010 Melhor Ator (para Jeff Bridges), que venceu o prêmio. Maggie Gyllenhaal foi indicada à premiação de Melhor Atriz Coadjuvante, apesar de não ter ganhado, ela consegue dar muito charme à personagem. No Globo de Ouro, Jeff Bridges foi vencedor como Melhor Ator e a canção "Weary Kind" (Ryan Bingham; T-Bone Burnett) foi vencedora da Melhor Canção Original.

Coração Louco trata da vida de um cantor que encontra as respostas no fundo da garrafa e que nunca existiu, apesar de ser muito real. Vale a pena conhecer Bad Blake.

sábado, 14 de agosto de 2010

Sobre o Cinema Nacional



A nossa história cinematográfica é rica, Iniciando sua relevância nas paródias das chanchadas, como realidade nacional que começou a aparecer nas telas, embora de maneira tímida, e o homem simples do Brasil passou a comunicar com as grandes multidões que com ele se identificava, através de atores e atrizes que já tinham alcançado certa popularidade no rádio. Passando pela grandiosidade de produtoras, tais como Atlântida; passando pelo sonho hollywoodiano da Vera Cruz é o nacionalismo catártico do Cinema Novo, movimento de jovens cineastas politizados, como Glauber Rocha e Cacá Diegues que foi produzido sob a repressão da ditadura.

Quanto aos filmes atuais, tem aparecido algumas produções interessantes, como “O Céu de Suelly”, “O Cheiro do Ralo”, “Saneamento Básico”, “Cinema, Aspirina e Urubus”, “Cidade de Deus”, “Linha de Passe” e “Estômago”, entre vários outros, porém é preciso que esses longas cheguem aos quatro cantos do pais e não se limitem ao eixo centro-sul.

É preciso também, que a arte brasileira ganhe caráter independente, para que realize um nacionalismo em literatura e arte, afinal enquanto o nosso Cinema (quanto meio de comunicação de massa, entretenimento e formador de opinião) for subjugado por valores estrangeiros, não seremos um país autônomo, afinal o combate contra a dominação social e financeira caminha de mãos dadas contra a dominação cultural e artística.

domingo, 8 de agosto de 2010

O lobo que fugiu à regra. Ou o contrário.




Que os filmes de horror exploram nossos medos, angústias e ansiedade, todos sabem. No caso do O LOBISOMEN, refilmagem do clássico de 1941, a receita está lá, mesmo que carregada de sangue.

O longa trata do retorno do famoso ator Larry Talbot (Benicio del Toro) a casa de seu pai (Anthony Hopkins), a pedido de sua cunhada (Emily Blunt) desesperada por notícias do noivo. A partir daí, o filme começa.

Talbot, despertado por seu lado Sherlock Holmes, decide investigar sozinho a razão da morte de seu irmão. Em sua busca, percebe que não foi uma morte “natural”, e sim um mistério recheado de inúmeros enigmas e uma maldição. Uma maldição chamada licantropia, a origem “lobisomen” em sua família.

Para o diretor, Joe Johnston, o grande desafio é produzir uma refilmagem de um longa de meio século atrás com enigmas e sustos atuais. Ora, o que dava medo há anos já não assusta mais, sobretudo em época de vampiros, lobos e bruxinhos do bem. Apesar disso, a receita de trazer um ar sombrio, com apelo obscuro de um Castelo no País de Gales, com florestas sombrias e cenas clássicas, está bem produzida.

Muito embora, o nosso lobo pareça um cão malvado a procura de sangue, nada mais. É um cachorrão doido meio Freddy Krueger, com muito sangue e meio Jack Estripador, com muitas, muitas partes do corpo humano voando por aí.

O interessante é a atuação da bela Emily Blunt, ar feminino essencial em meio à luta masculina, sobretudo quando se trata das cenas entre Benicio del Toro e Anthony Hopkins, nas quais existe uma tensão declarada.

Se você não é do tipo que vê lobos, vampiros, bruxos e ogros com bons olhos, vale uma indicação. Mesmo que seja apenas para resgatar a “aura” dos clássicos, do verdadeiro Lobo-Mau.

sábado, 7 de agosto de 2010

Bombeiros com aspas




O filme, cujo mote principal é retratar uma sociedade totalitária, no qual, "bombeiros", ferramenta repressora do Estado que têm obrigação de queimar livros e punir pessoas que lêem ou tiveram contato com livros, traz uma série de questionamentos e conceitos atuais, mesmo sendo produzido na década de 60.

Basicamente, o filme FAHRENHEIT 451 mostra um Estado totalitário que apresenta "bombeiros" que têm a função de queimar qualquer tipo de material impresso, pois fora convencionado que a literatura é propagadora da infelicidade. Mas a personagem Montag (Oskar Werner), um bombeiro, começa a questionar tal linha de raciocínio quando vê uma mulher preferir ser queimada com sua vasta biblioteca a permanecer viva naquele contexto.

Após a análise dessa produção cinematográfica, o sentimento que fica é de angústia, afinal se mostra uma sociedade legitimada por líderes totalitários, que querem manter a paz social e para tal, "cuidam" da "educação", queimando livros. O fato é a maneira de naturalidade que os "bombeiros" do Estado queimam um dos bens que a sociedade contempla há anos, como forma de conhecimento, entretenimento e informação: os livros. Dessa maneira, alguns conceitos são compartilhados com teóricos e autores da Escola de Frankfurt, como é o caso da Esfera Pública proposta por Jurgen Habermas. Assim como a reflexão do autor (o espaço público perde poder devido a individualização promovida pelos Meios), no filme, à medida que as pessoas deixam de ter contato com os livros e recursos acadêmicos, elas perdem a capacidade de reflexão e o grupo social adquire um posicionamento de conformismo, passividade e inércia, como é o caso da população representada no filme.

Além disso, quando o diretor do longa propõe essa sociedade subserviente, ele a ilustra como essa sociedade de consumo, da ideologia do capital, que impõe o pensamento único, o individualismo, a "ordem", como é o caso dos países em que os Aparelhos Ideológicos de Estado fazem seu trabalho de reprodutor da ordem vigente, como ocorre no filme. Diante disso, o conceito proposto por Louis Althusser fica mais evidente nas cenas em que os "bombeiros" ateam fogo nos livros, perseguem, prendem e executam pessoas encontradas juntas aos livros. Esse trabalho repressor e coercitivo dos "bombeiros" demonstra que pertence aos Aparelhos Repressores do Estado, bem como as leis daquele suposto Estado.

Outro fator que é demonstrado implicitamente pelo diretor do filme, são os recursos bélicos e tecnológicos que os "bombeiros" possuem para legitimar sua ação coercitiva. Este cenário nos leva a crer que, além do Estado absoluto, existe uma burguesia que patrocina estes órgãos repressores, mantendo controle hegemônico (Antônio Gramsci) sobre uma sociedade através da coerção política e cultural.

Vale ressaltar que essa produção cinematográfica surge num contexto (década de 60) de intensas manifestações políticas e teorias críticas. Desse modo, o diretor do FAHRENHEIT 451, bem como os teóricos citados ao longo deste post, acreditam na força libertadora do conhecimento, da informação (livre!!!), uma vez que os livros propiciam o pensar por si mesmo, como ação questionadora.

sábado, 31 de julho de 2010

Em busca do meu VHS




Algumas pessoas comunicam sucesso antes mesmo de produzir algo. O caso Johnny Depp e Tim Burton é um exemplo desses. Se ainda acrescentarmos Helena Bonham Carter à dupla, a receita de filme promissor é quase certa, sobretudo se lembrarmos do filme Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet, em que, apesar de haver um contrate entre a beleza dos musicais com a cabeça delirante e obscura de Burton, é uma ótima obra.

No Alice no País das Maravilhas o trio está lá, o sucesso nem tanto. A história adapta contos e poemas escritos por Lewis Carroll e monta um cenário interessante: Alice (Mia Wasikowska), aos 19 anos, vai a uma festa e descobre que está prestes a ser pedida em casamento perante centenas de socialites. Ela então pede um tempo para pensar e deixa todo mundo com cara de interrogação. Enquanto corre, fugindo daquela situação constrangedora e pessoas que ela não gosta, vê um certo coelho branco de colete e relógio na mão e decide segui-lo. Cai, então, em um buraco e vai parar no País das Maravilhas. Nesse mundo fantástico, Depp é o Chapeleiro Maluco, Anna Hathaway é a verdadeira personificação das princesas Disney sendo a Rainha Branca e Helena Bonham está ótima como a Rainha de Copas. O restante? Personagens oriundos da computação gráfica.

O pior de tudo é o começo. No caso do menu principal do DVD, a Disney foi fiel à linguagem dos primeiros filmes de animação. Até parece que vamos ver a primeira versão, pois o menu traz um sentimento de agradável sentimento de nostalgia, muito embora ela se perca rapidamente quando você aperta o play.

A delirante cabeça de Tim Burton não foi ajudada pelos delirantes efeitos visuais e gráficos do longa. Muito efeito, pouco espaço ao lúdico. Até deu saudade da primeira versão que assistimos em VHS, no qual a história se sobressaia ao visual, e não o contrário.